Lúcia Lemos, é fotógrafa e vive em Macau desde 1982. A maior parte dos trabalhos fotográficos a Preto e Branco publicados, são sobre a cidade. A artista tem vindo a participar desde 1999, em exposições colectivas tais como: gravura, pintura, instalação, cerâmica, joalharia, fotografia, vídeo-arte. Estudou fotografia com os seguintes artistas professores: fotografia com Wong Ho Sang, Katharina Sieverding; vídeo-arte com Hanspeter Amman; gravura com Bartolomeu Cid dos Santos, Tetsuya Noda, Joaquim Franco; porcelana com Marta Nashimura, Simon Ho; joalharia com Cristina Vinhas. É gestora do Centro de Indústrias Criativas – CREATIVE MACAU, desde 2003 data do seu estabelecimento pelo Instituto de Estudos Europeus de Macau.


FOTOGRAFIA

2010

Macau “Aedificia ad Jocare” galeria Creative Macau
Xangai – pavilhão Tak Seng On na ExpoShanghai

2009

Brasil “Aedificia ad Jocare” Memorial de Curitiba – galeria Salão Paraná

Itália “Macau Portraits”, Gallery La Fretinelli, Monza

2007

Áustria “Heike Bogenberger e Wai Yuen Yp Portraits”, Alte Saline Hallein, Salzburg

2006

Macau “Quietude da Dama”, galeria Livraria Portuguesa

2005

América “No Rio dos Meus Olhos”, Koreber Hall Worth Rycler Gallery, UCBerkeley Macau “Emotions”, Ou Mun Café

2002

Macau “The Art of Images – fotografia e vídeo” - Galeria Milénio (FO, IEEM)

2001

Macau “20 Retratos de Mulheres Artistas de Macau” Centro Cultural de Macau.


DIFERENTE MEDIA

2010

Macau JOALHARIA “TO DAY TOMORROW”, Creative Macau

2009

FEIRA INTERNACIONAL DE MACAU, organização da Casa de Portugal; “COSMOPOLITAN MACAU” , Creative Macau

2000

GRAVURA “NOVOS GRAVADORES”, Museu de Arte de Macau

1999

Instalação “BLACK BOX”, Museu de Arte de Macau


PRÉMIOS

2009

JOALHARIA: “Meu/Teu”, alfinete (ouro, prata, porcelana) - Concurso “Projecto para uma jóia, organização da Casa de Portugal

2003

VIDEO-ARTE “Why”

2001

“Intangible” - Festival de Artes de Macau, organização do Instituto Cultural de Macau


PUBLICAÇÕES

2004

Livro/fotobiografia: “O Olhar de Henrique de Senna Fernandes – fragmentos”, edição Fundação Jorge Álvares/Instituto Internacional de Macau

Onde nasceu?
Nasci em Vila Nova de Famalicão, Distrito de Braga.

Porque se tornou uma artista?
Desde que me lembro só gostava das coisas belas; pessoas, natureza, livros, objectos, cores. O silêncio também me fascinava. Especulava sobre ele e o desconhecido. A mim tudo me dizia muito, queria explorar tudo. Só depois de formar família e ela crescer, iniciei o meu caminho artístico explorando mundos que trago comigo. Desse trabalho publicado foram participações colectivas e individuais onde tenho mostrado trabalhos diversos: fotografia, gravura, instalação artística, vídeo-arte, cerâmica, joalharia. Contudo, a fotografia a Preto e Branco é ainda a minha forma de expressão artística de eleição.



Fale-nos do seu trabalho artístico recente, nomeadamente da sua mais recente exposição.
Em Outubro de 2010 apresentei uma peça escultórica de joalharia, em prata HEART (colar em forma de coração, estruturado com sete corações onde apliquei a técnica tradicional portuguesa de filigrana). Em Maio de 2009 apresentei em Curitiba, Brasil, uma exposição intitulada AEDIFICIA AD JOCARE, nove fotografias a Preto e Branco (1.82m x 1.82m) que mostram certas edificações volumosas construídas para a indústria do jogo que vieram alterar radicalmente a fisionomia de Macau. Em Fevereiro de 2010, apresentei sete fotografias desse projecto na galeria CREATIVE MACAU.

Pode-nos falar das técnicas que usa nas suas obras artísticas?
Na fotografia uso velocidades baixas e nunca, flash, jamais. Não gosto de “limpar” as paisagens não elimino “irregularidades. Na selecção das imagens é onde, também, reside a diferença entre os autores. Na joalharia utilizo a sensibilidade e as minhas raízes culturais. Quando tenho uma ideia precisa do que quero realizar, objectivo-a no papel. A ideia toma corpo enquanto a materializo; estruturando-lhe o corpo, delineando-lhe os contornos vestindo-a em pormenores.

Onde vai buscar a inspiração para os seus trabalhos artísticos? Qual é a sua motivação?
Tudo o que me rodeia é inspirador para as minhas criações. Quanto à fotografia, gosto de fotografar a qualquer hora do dia, é quando me apetece. Porque o que me interessa é o objecto em si, pois a luz das horas difere muito umas das outras, o efeito que oferecem é fascinante. É como se olha o objecto que consiste a diferença. Relativamente à joalharia, a minha mala-de-mão carrega pedrinhas, raízes e folhas por causa das formas, textura, cores, etc. O que me motiva, é a descoberta de coisas novas, muitas são abandonadas outras são continuadas por teimosia, como a joalharia.

Há alguma história, sentido ou mensagem nas suas obras ou são principalmente exercícios de técnica pura.

Na fotografia tem sempre, invariavelmente uma mensagem ou várias. Nas criações artísticas que requerem muito trabalho manual, então é sobretudo técnica pura, porque ainda não domino a técnica de produção. Mas sou irreverente no processo de aprendizagem, ponho os mestres nervosos. Estou sempre a contrariar, teimo fazer diferente mesmo sabendo que preciso ganhar conhecimentos técnicos para realizar a obra. Então, choro, quase desisto, mas passado o fastio, volto. Não sei porquê, só me interessa o contrário do que me é dito. Mas a recusa do velho é onde reside a minha curiosidade e me motiva à criação.

Como inicia uma obra? E quando considera a obra terminada?
Inicio cada projecto por um estímulo exterior, um convite. Outras vezes cria-se em mim um desafio, uma inquietação. Começo mentalmente a abordar ideias falando comigo, rabisco-a no que está à mão, partilhando com outros – para que ela deixe de ser abstracta. Depois, repenso-as e começo a materializa-las. Consumo imensa energia. Entre momentos de zanga, ansiedade e satisfação, considero terminada a obra quando mais nada há a acrescentar. Às vezes sinto-me satisfeita com o resultado final.

Porquê e como é que intitula os seus trabalhos?
De modo geral dou nomes bastantes objectivos mas têm um um significado para mim muito importante. Gosto de dar nomes aos trabalhos pois quero que cada uma tenha uma identidade própria. Acho que cada obra por si só, revela tanto da identidade do autor que se sentem que são inseparáveis e simultaneamente independentes. Intitulo os meus trabalhos de maneiras diferentes: ou nasce ao mesmo tempo que a ideia da obra mas muitos deles são baptizados a meio da concretização. Nunca no fim da obra acabada porque já tudo se esgotou.

Que artistas influenciaram o seu trabalho? De que forma?
Nenhuns. Mas admiro alguns. Leio bastante. Vejo muitas exposições, mas não me atrevo a ser como eles, no entanto, dão-me coragem para criar no sentido de que as ideias insanas produzem belezas imortais. Confesso que o que é belo e extraordinário sempre muito me fascina. Mas não fico presa ao que os outros criam. Acho que cada criador deve ser ele próprio, há sempre público para ele.

Quais são as melhores e as piores facetas da vida de um artista?
O ego. A Audácia. Egoísmo. Narcisismo. Medo, Isolamento. génio. depressão. insegurança. paixão. Motivação.

Frequentou uma escola de arte? Na sua opinião, isso é importante para um artista?
Frequentei e convivi com muitos artistas, com variadas pessoas que reflectiam sobre assuntos. Foram muito importantes para o meu crescimento intelectual e técnico-artístico. Penso que a escola ensina a ver, a sentir e a entender a subtileza e a técnica dos famosos. Aparentemente, para se desenvolver um estilo diferencial só se consegue através de um detalhe inovador. Na verdade, o talento é algo intrínseco da pessoa, mas o trabalho contínuo e a procura constante da satisfação são a única escola possível de cada criador.

E o lado comercial de se ser um artista? Como gere a venda da sua arte?
Até agora expus trabalhos para o público apreciar.

Consegue viver da sua arte?
Não. Só tenho despesas.

Já exibiu internacionalmente?
Sim. Portugal, Brasil, Itália, USA.

Qual é a sua opinião sobre o ambiente artístico em Macau?
Creio que há bastantes criativos, mas são inconsistentes a produzir. Os trabalhos são muito bem aceites internacionalmente Por outro lado, não havendo galerias verdadeiramente comerciais, não se constrói um mercado organizado que regule qualidade, preço, competitividade. Outra razão que motiva o absentismo é a inexistência de Universidades e Centros de Arte e de Design que são bens culturais de uma população evoluída. Embora Macau abunde em dinheiro e progresso não consegue situar-se nesses parâmetros equitativos. Não há pensamento crítico que eleve a qualidade cultural que tenha consequências em progresso. As estatísticas de emprego mostram que a população desempregada maior é aquela que tem estudos universitários, pela simples razão que não há empregos de qualidade para pessoas qualificadas.

É fácil ser artista em Macau?
É muito fácil. Aqui está tudo à mão, até a inspiração...Mas o artista cria esporadicamente apenas não opta por uma carreira artística. Não assume que é bom e Macau tem tudo a seu favor. Aqui criativos trabalham para cada convite. Consequentemente, não têm obras em número suficiente para se ver. Logo quando chegam as oportunidades eles nunca estão preparados. Estão sempre atrasados.

Que outros interesses tem, para além da arte?
Viajar. Caminhar pelas ruas de Macau. Gerir a minha família. Conviver.

Onde se vê dentro de 10 anos?
Não sei. Mas gostava de morar no Brasil.

Que diria a um jovem artista no início da sua carreira?
Que sonhe. Que trabalhe muito. Que viaje muito. Que seja ele próprio na sua arte. Que use e abuse da sua cultura para oferecer ao mundo um trabalho diferente.


Questionário de Proust


Qual é a sua ideia de felicidade completa?
O amor.

Que receia mais?
Doenças que matam com grande sofrimento.

Qual é a característica de que gosta menos em si?
Impaciência.

Qual é a característica de que gosta menos nos outros?
Abuso.

Quando e onde foi mais feliz?
Luanda, Porto, Macau.

O que é que considera o seu maior feito?
Os meus três filhos.

Se pudesse escolher voltar como uma coisa ou outra pessoa, o que ou quem seria?
Outra vez eu. Burilava-me mais cedo para me encontrar mais rápido.

Qual é o seu bem mais precioso?
A minha família.

O que é que considera o tipo mais abjecto de miséria ou desgraça?
O ser humano.

Onde gostaria de viver?
Brasil.

Qual é a sua actividade preferida?
Artes.

O que é que mais detesta na vida?
Fealdade.

Qual é a sua característica mais marcante?
Curiosidade.

O que é que valoriza mais nos seus amigos?
Lealdade.

Quais são os seus artistas preferidos?
Fotógrafos: Katharina Sieverding, Michiko Kon, Annette Messagerr, Ynn Davis; pintores e escultores: Júlio Pomar, Eduardo Luís, Salvador Dali, Henri Moore, Gustavo Bastos; cineastas: Michelangelo Antonioni, Wong Ka Wai.