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Página Principal > Notíicias Sobre Arte > Local > O coleccionismo em Macau

O coleccionismo em Macau

2010/7/26
Hoje Macau
 

Gosto pela arte chinesa no princípio do século XX | A palavra colecção deriva do latim “Collectiône” e significa acto ou efeito de juntar, de reunir objectos da mesma natureza formando um conjunto, um ajuntamento, uma colectânea. Contudo, coleccionar não é apenas o acto de reunir objectos, mas também uma forma de “construir” sentidos e conferir significados. É um acto criativo e criador de identidade.

Margarida Saraiva
hojemacau@yahoo.com

O DESEJO

As tradições mais recentes do coleccionismo remontam, em Macau, no seio da comunidade portuguesa e macaense, a uma época anterior ao início da Primeira Grande Guerra Mundial, época em que “floresceu em Macau a mania dos coleccionadores de arte chinesa” [1]. Em 1911, o último imperador abdica do trono, a dinastia Manchú entra em colapso e a República é proclamada por Sun Yat Sen, em Nanquim. As convulsões político-sociais obrigam ao êxodo de importantes dignitários imperiais que fogem através de Macau e vendem as suas preciosidades, inundando o mercado local de antiguidades chinesas.

Relatos da época descrevem que por toda a cidade havia peritos a fazer considerações sobre obras de arte chinesa. Os “sói-hák” [2] ou “soi-disant”, andavam de porta em porta a vender objectos supostamente de grande valor artístico.
As casas das famílias macaenses viram-se repletas de chinesices. As arcas, as vitrinas, os armários, as mesas de sacrifício, as paredes e os móveis abarrotavam de objectos, bonecos, cerâmicas, vidros e bronzes.

As descrições dos interiores das casas, apesar de ligeiramente romanceadas, atestam a moda que se gerou e em alguns casos deu origem à constituição de colecções capazes de fazer história. A casa de Vicente Jorge, um dos maiores coleccionadores da época, era descrita da seguinte forma:

“(...) Não existe sala nenhuma daquele vasto edifício, que não esteja a regurgitar de ceramos e de objectos representativos de todos os ramos da arte chinesa. Não obstante ter de lutar com a falta de espaço, o Sr. Jorge consegue dispor os objectos da sua colecção com apurado gosto” [3].

À medida que avançamos no século XX, a China depara-se com uma série de guerras civis. A situação não pára de se agravar até 1945.

Nesse contexto de guerra, as falências sucediam-se. As dificuldades de importação fizeram disparar os preços e tornava-se necessário negociar para sobreviver. Nas tendas de bricabraque da Travessa do Armazém Velho, onde se vendia um pouco de tudo, os preços eram bastante mais acessíveis. Era aí que muitos coleccionadores compravam e vendiam as suas peças. Uns por necessidade, outros por curiosidade, todos acudiam às tendas capazes de satisfazer as mais diversas necessidades... Esta prática acabaria por se tornar num verdadeiro passatempo desenvolvendo, em alguns casos, o desejo de coleccionar.

[1] Pe. Teixeira, Manuel, in “O Clarim”, 17 de Abril de 1977

[2] agentes que iam “desencantar peças de grande antiguidade em longínquas aldeias”, Gomes, Gonzaga, Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge, in Renascimento no. 2, 1943, p. 489.


[3] Gomes, Gonzaga, “Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge”, in Renascimento no. 2, 1943, p. 490.

(Continua)


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